Fim
da televisão como a conhecemos
Por Antonio Brasil **
"A
TV deve acabar nos primeiros seis meses. Em breve as pessoas vão
se cansar de ficar olhando para uma caixa de madeira todas as
noites".
Darryl Zanuck, executivo da 20th Century Fox, Hollywood, 1946
"No futuro próximo a TV deve migrar para a Internet
- o que não significa que ela vai ficar por lá".
Bruce Owen, 2003
Prever o futuro é sempre muito difícil. Quase impossível.
Mas. apesar dos erros do passado, jamais deixamos de tentar. Entre
o presente analógico e o futuro digital, cabe refletir
se a "televisão como a conhecemos" ainda vai
existir nos próximos anos. Talvez estejamos comprando uma
"máquina de escrever digital" em plena era dos
computadores. O fim da televisão parece ser inevitável.
Alguns defensores mais radicais das novas tecnologias já
escrevem o seu obituário.
Pode ser precipitado anunciar a morte do nosso principal meio
de comunicação. Assim como o rádio no passado,
a TV enfrenta sérios problemas de identidade e poderosos
competidores. Deve se transformar em algo completamente diferente
nos próximos anos. Mas como será e quem vai assistir
a essa televisão do futuro?
Para tentar responder a essas questões, a IBM, com o apoio
da prestigiada revista britânica The Economist, divulgou
um estudo sobre o futuro da TV com título sugestivo: The
End of TV as we know it: a future industry perspective, O Fim
da Televisão como a conhecemos: uma perspectiva do futuro
da industria, (ver aqui).
Todos os interessados no debate sobre a TV digital brasileira
deveriam ler esse longo e detalhado estudo. Se não for
nada, para evitar gastar bilhões para embarcar em uma "canoa
furada" que pode desaparecer em breve.
O cenário do futuro da televisão descrito pelo estudo
da IBM é o ano 2012. A pesquisa entrevistou centenas de
usuários de mídia nos EUA, Europa e Ásia.
Por motivos óbvios, ignorou a África e a América
Latina.
ALTA DEFINIÇÃO GARANTE ALIENAÇÃO
Segundo
os dados obtidos, a evolução do futuro próximo
da televisão passa por duas vertentes distintas: a disponibilidade
de canais e o grau de envolvimento do telespectador com a mídia.
Nessa última, são identificados dois grupos de telespectadores:
os passivos massivos, aqueles telespectadores que fazem questão
de "vegetar" horas a fio na frente da telinha. Nos EUA
são chamados de Couch Potatoes ou Batatas de Sofá.
Assistem a qualquer coisa. Para eles, a televisão serve
somente para escapar da realidade. Como qualquer droga poderosa,
a TV vicia, aliena e emburrece. Mas também alivia as tensões.
Uma televisão digital que privilegia as imagens em alta
definição é essencial para esse publico.
As imagens de cinema aprofundam ainda mais a experiência
de alienação ou imersão total pela televisão.
Para esse público, a qualidade e a diversidade do conteúdo
da programação são indiferentes. Tanto faz.
É o tal telespectador padrão do JN, o Homer Simpson,
por exemplo. Eles são escravos do vício e assistem
a qualquer coisa. Não é à toa que essa é
a prioridade dos radiodifusores brasileiros: alta definição
garante ainda mais alienação!
Do outro lado, estão os "espectadores ativos".
Mais críticos e exigentes em relação ao conteúdo
da programação, eles querem interagir e controlar
a experiência televisiva. Por enquanto, ainda assistem à
televisão. Mas estão sendo rapidamente seduzidos
pelos novos recursos da Internet.
No Reino Unido, o site de pesquisa Google também confirma
essa tendência. Segundo dados divulgados essa semana (ver
aqui), os britânicos já passam mais tempo na Internet
do que vendo televisão. Em média, 164 minutos por
dia em frente ao computador ou 41 dias inteiros por ano. Em contrapartida,
eles vêem televisão durante apenas 148 minutos. As
maiores razões para o crescimento são o aumento
do uso de computadores no trabalho e a adoção de
conexões de banda larga em computadores domésticos
cada vez mais poderosos.
CONSUMIDORES DE MÍDIA
Ainda
segundo o estudo da IBM, dentro do grupo de espectadores ativos,
a pesquisa identificou dois subgrupos: os gadgetiers (aqueles
que adoram as novidades tecnológicas) e os kool kids (jovens
mais interessados em novas modas e tendências).
Esses dois últimos subgrupos incluem o segmento mais importante
para o futuro da televisão: os jovens entre 18 e 24 anos.
Eles serão os principais consumidores de mídia,
os líderes e os formadores de opinião do futuro.
Aquela garotada com grande poder aquisitivo, alto grau de instrução
e sofisticados conhecimentos na área de informática.
Um segmento fundamental que já despreza a TV na forma que
conhecemos hoje.
Esses jovens consideram assistir televisão, um programa
de velho. Passam mais tempo na Internet, selecionam as notícias
de interesse pessoal na rede e preferem interagir com videogames
cada vez mais sofisticados. É exatamente esse grupo que
vai decidir o futuro da TV. Porém, o poder do grande público
passivo não pode, nem devem ser ignorado ou subestimado.
Para a pesquisa da IBM, o telespectador - ativo ou passivo - é
essencialmente um consumidor de mídia. Como boa empresa
capitalista em país de economia avançada, não
há preocupação com a função
educadora ou manipuladora da televisão. Nesses países,
as pessoas têm alternativas para obter informações,
educação e entretenimento. É nesse cenário
que a IBM prevê o começo do fim da televisão
da forma que conhecemos.
DICAS PRECIOSAS
Mas os pesquisadores também indicam que o futuro ainda
pode reservar boas oportunidades para os executivos e produtores
de televisão. Para isso, eles precisam reconhecer e avaliar
essas tendências e começar a agir rápido.
Não há tempo a perder.
O estudo da IBM procura fazer seis recomendações
fundamentais para enfrentarmos o futuro dessa televisão
que ainda não conhecemos.
Segmente - Invista em estratégias diferenciadas
e específicas para os dois grupos de audiência do
futuro (os passivos e ativos).
Inove - Crie novos modelos de negócios
e pacotes de preços que ofereçam alternativas para
os novos consumidores de mídia. É melhor enfrentar
riscos hoje do que arriscar comprometer ainda mais o futuro.
Experimente - Desenvolva, tente, refine e jogue
com o futuro (roll-out). Conduza experimentos de mercado sozinho
ou com parceiros para descobrir as preferências "reais"
dos consumidores de mídia do futuro.
Mobilize - Crie conteúdo móvel
que ultrapasse os limites das mídias e que ofereça
aos consumidores uma experiência televisiva mais dinâmica.
Garanta acesso fácil e sincronizado a outras mídias
e aos novos equipamentos interativos disponíveis. Mas não
deixe de levar em conta a possibilidade de "não intervenção"
por parte dos telespectadores passivos.
Abra - Direcione as plataformas com acesso livre
a conteúdos para que elas se renovem. Flexibilize os modelos
de negócios para gerar novas fontes de recursos para as
redes de TV.
Reorganize - Avalie o atual modelo de negócios em relação
às necessidades do futuro. Identifique as suas principais
prioridades ou "competências" de tal forma que
elas possam aumentar a sua competitividade no futuro. Identifique
os setores não essenciais que possam ser terceirizados
ou que possam se tornar "parcerias".
É evidente que a pesquisa da IBM procura alertar os executivos
e produtores de TV para as ameaças do futuro. O principal
foco da pesquisa é a gestão dos negócios.
A cada dia torna-se ainda mais evidente que os tempos de vacas
gordas, enormes verbas publicitárias e com altíssimos
índices de audiência desaparecem na televisão
que ainda não conhecemos. Não há como evitar
ou desprezar essa tendência. A nova televisão exige
um novo modelo de negócios.
TV DINOSSÁURICOA VERSUS IPTV
Ainda não estão convencidos do fim da televisão
como a conhecemos? George Gilder, um dos principais orientadores
da atual política de telecomunicações americana,
também prevê o fim da televisão. "A TV,
como nós a conhecemos, é fruto de um limite técnico
em superação. No mundo da TV, o meio utilizado para
a transmissão é o das ondas de rádio. Um
meio escasso ou, como dizem os especialistas, com uma banda estreita...
Este cenário se desfaz rapidamente."
Indústrias como as de televisão e o cinema podem
não sobreviver a 2030. Os principais conglomerados da área
das comunicações já começam a preparar
a migração para um mundo centrado no uso extensivo
dos microcomputadores.
Segundo essas avaliações, a televisão da
era "dinossáurica" se transforma em um veículo
menor, mais ágil e muito mais diversificado. A TV na Internet
ou IPTV (Internet Protocol TV) já conta com 1.3 milhões
de assinantes nos EUA. As previsões indicam um crescimento
para mais de 38 milhões de assinantes em 2010. A cada dia,
mais e mais americanos tomam conhecimento das promessas da IPTV.
A Harris Interactive divulgou uma pesquisa detalhada sobre o desenvolvimento
da TV na Internet (ver aqui). Hoje, 56% dos americanos já
ouviram falar da IPTV e mais de um quarto desse grupo estão
interessados nesse tipo de TV.
MAIS PESQUISAS "BRASILEIRAS"
De qualquer maneira, prever o futuro continua sendo uma tarefa
arriscada. Há muitas variáveis e possibilidades
de erros. Mas ignorar as tendências é muito mais
perigoso.
Em outros tempos, os poderosos executivos do cinema como o David
Zanuck da 20th Century Fox também subestimaram o poder
e as ameaças de um novo meio de comunicação,
a televisão.
Para evitar surpresas e caras desagradáveis deveríamos
investir menos em promessas vazias e mais em pesquisas sérias
feita aqui mesmo no Brasil. Nem todos os estudos sobre televisão
deveriam se restringir a avaliar as alternativas tecnológicas,
condenar os malefícios do meio ou aferir índices
de audiência. Essa parte é fácil.
As universidades brasileiras deveriam abandonar os preconceitos
e tomar a dianteira nas pesquisas sobre o futuro da televisão
brasileira. Deveriam ser os principais vetores da renovação
dos meios de comunicação e da sociedade. O objetivo
seria apresentar alternativas mais criativas para um futuro possível.
Mas em meio a uma cultura que venera os "espelhinhos"
tecnológicos estrangeiros, despreza o planejamento e estimula
a improvisação, preferimos acreditar nas boas intenções
dos radiodifusores brasileiros, ministros ambiciosos ou a inspiração
divina de lideres messiânicos."
** (Este artigo foi originalmente publicado no site Comunique-se)
Fonte:
MIDIATIVA - 05/04/06